Arton: Um Mundo de Leitores!

Diferente da muitos cenários de fantasia medieval, Tormenta tem um diferencial no que tange o nível de desenvolvimento sócio-cultural dos habitantes, que o torna mais próximo da Renascença do que da Idade Média terrestre, ou ainda mais além.

No Reinado, a maioria das pessoas sabe ler e escrever, sejam elas nobres ou camponesas. Isto acarreta numa série de conseqüências. Vamos divagar um pouco sobre elas:

A sagrada missão de Tanna-Toh:

A alfabetização em massa se deve a ação dos clérigos de Tanna-Toh – Deusa do Conhecimento – que fazem uma verdadeira cruzada em prol da educação, viajando as aldeias mais distantes dos reinos com o intuito de alfabetizar toda população civilizada do reino (e por vezes, a não-civilizada, nem que seja na marra!).

É surpreendente pensar neste feito num mundo de fantasia medieval, na verdade, é bom demais pra ser verdade. Na prática, a maioria dos habitantes longe dos grandes centros saberia apenas ler e escrever superficialmente, o suficiente para o dia-a-dia de um plebeu (ou seja, quase nada). É impossível que exista um clérigo de Tanna-Toh para cada comunidade do Reinado (como na vila de Back’Ground da HQ Dado Selvagem).

Podemos especular que [1] comunidades de grande e médio porte contam com um bom contingente de servos de Tanna-Toh (que não precisariam ser clérigos ou bardos, apenas devotos) para instruir a população. [2] Regiões compostas por várias pequenas comunidades próximas devem contar com um ou dois professores para atender a toda região, enquanto [3] regiões distantes dos grandes centros são instruídas por devotos missionários que passam lá de tempos em tempos para ensinar o básico, partindo em seguida. Imagino que exista uma ordem de missionários de Tanna-Toh que passam a vida viajando pelos ermos com este objetivo.

Independente do caso, a educação artoniana é diferente do nosso modelo “escolar”. Apenas os abastados devem ter educação integral, pagando instrutores particulares. O artoniano médio tem que trabalhar duro, incluindo as crianças. Portanto, nos casos 1 e 2 deve haver um acordo com as comunidades, onde uma vez por semana (talvez no Lunag: o dia do descanso), os pais enviem seus filhos para os templos para que estes possam ser instruídos. Desta forma, a educação se restringe provavelmente a alfabetização, fundamentos de matemática e ensino religioso (e provavelmente doutrinação patriótica, em reinos como Deheon e Yuden).

No caso 3, a situação é mais complicada: o professor missionário possui um curto período de tempo para instruir os alunos – que não necessariamente são crianças – e não irá acompanhar seus progressos, pois tem que viajar para outras regiões carentes de saber. A educação é bem mais restrita e a alfabetização deve ser bem limitada (mais ainda assim, melhor que nada). Também podemos imaginar que estas áreas sejam servidas por clérigos genéricos do Panteão, que podem (ou não) prestigiar Tanna-Toh, ajudando na educação da população. Isso também vai depender do nível de instrução deste sacerdote.

Por fim, de onde vem o dinheiro? Podemos especular que as Igrejas de Tanna-Toh contam com doações dos nobres, e também do apoio dos moradores. Afinal de contas, a alfabetização é uma missão sagrada, e ninguém quer desafiar os deuses! Além disso, estes devotos (especialmente os missionários) devem ser artistas também (como bardos), oferecendo entretenimento para a população local, contando histórias e canções.

[Nota mental: escrever artigo sobre o culto de Tanna-Toh e sua organização].

Uma prensa de tipos móveis.

Um mundo de livros:

Um mundo onde grande parte da população sabe ler, principalmente nos grandes centros, é um ambiente ideal para o desenvolvimento da literatura e do mercado de livros. Este parece ser exatamente o caso do Reinado: oficialmente, sabemos que existem jornais de circulação e periodicidade limitada, como a Gazeta do Reinado e a Folha do Império. Além disso, temos De Foe, um romancista que vive em Quelina, o refúgio dos piratas, autor de diversos e famosos romances sobre pirataria (tidos como ficção).

Estes dados indicam que os artonianos já desenvolveram as técnicas de impressão. Na Terra, a impressão inicialmente era feita com blocos de madeira entalhados com o texto, de forma que os blocos eram mergulhados em tinta e seu conteúdo transferido para o papel – esta modalidade de impressão ainda deve ser popular, especialmente para conteúdos simples, como os cartazes de recompensas por fugitivos.

Mais tarde, foram inventadas as prensas com tipos móveis, onde cada “tipo” é um carimbo com uma letra, que são combinados para formar as palavras e o texto. – Os tipos móveis também são realidade no Reinado, possibilitando a publicação de livros e jornais. No entanto, imagino que devam ser uma aquisição recente, sendo mais comuns nos grandes centros.

Outro fator importante para a popularização dos livros é a invenção do papel, material barato e resistente, ao contrário do papiro (muito frágil) e do pergaminho (resistente, mas caro e trabalhoso de fazer). Assim como na Terra, imagino que o papel tenha sido inventado no oriente, ou seja: em Tamu-ra, chegando ao Reinado através do contato entre as duas civilizações. Daqui podemos imaginar que os antigos reinos de Lamnor desconheciam o papel, logo, o acesso a cultura era mais complicado, o que vai de encontro com alguns comentários do Trevisan, no Fórum da Jambô, de que os reinos de Lamnor provavelmente eram mais feudais e fragmentados.

Ok, livros existem e são razoavelmente acessíveis, mas quais?

Pergaminhos: Antes de falar dos livros, não podemos deixar de falar em seus antecessores. O pergaminho é feito de couro de animais, sendo por isso, bastante resistentes. Os escritos antigos estão neste material, normalmente em forma de rolo de aproximadamente 6m (o “volumen”), escritos em sessões (e não no sentido do eixo cilíndrico, como alguns supõem).

Até hoje os pergaminhos são preferidos para documentos oficiais (escritos sempre a mão), anotações importantes e armazenamento de magias (imagina gastar uma fortuna para armazenar uma magia em algo frágil como papel?).

Jornais: São ainda raros, e possuem distribuição e periodicidade limitada. Os jornais costumam ser uma folha grande dobrada em duas, sendo vendidos na capital e passando de mão em mão, chegando assim às regiões mais distantes. A Folha do Império, veículo de imprensa oficial do Império de Tauron, possui distribuição melhor e periodicidade mais regular, como esperado dos minotauros: o jornal deve ser feito em Tapista e levado para as outras grandes cidades do Império, onde os tipos móveis são novamente montados e se imprimem novos jornais.

Anúncios: Facilmente produzidos e de rápida distribuição, folhas de anúncio infestam as cidades. A natureza dos anúncios pode variar de informes do governo, guildas ou igrejas, até propagandas, oferta de serviços e recompensas pela captura de criminosos. Aventureiros costumam prestar atenção neles, pois sempre pode haver uma oferta de trabalho.

Almanaques: Provavelmente o tipo de livro mais popular. Almanaques foram criados pelos astrólogos do Deserto da Perdição, trazendo um calendário e informações sobre os solstícios, fases da lua, posição de estrelas e planetas, etc. Sendo publicados anualmente. Com a criação dos tipos móveis, surgiram almanaques sobre as mais diversas áreas de conhecimento.

No campo, são populares os almanaques com informações sobre as fases da lua, o clima, colheita e cuidado de animais, informações sobre datas importantes, festas e ritos religiosos, como evitar pragas e monstros comuns na região, além de profecias e previsões para o ano. Nas cidades, os “assuntos rurais” são substituídos por almanaques com coletâneas de histórias, novidades sobre moda, informações sobre guildas e lojas, novas técnicas de manufatura, assuntos religiosos, etc.

Almanaques Científicos: Produzidos pelas principais organizações de pesquisa do Reinado, como a Academia Arcana ou a Universidade de Valkária. Este tipo especial de almanaque contém as principais descobertas científicas do ano, como a descrição de novas espécies, descobertas sobre civilizações distantes, teorias e descobertas sobre magia, alquimia, física, teologia, etc.

Tratados: Livros que divagam sobre diversos assuntos, normalmente de caráter acadêmico, portanto lidos apenas por eruditos. Tratados sobre a biologia de um monstro, técnicas secretas de luta, ou sobre as ruínas de uma civilização antiga, podem ser bem interessantes para aventureiros.

Manifestos: Tipo de texto que vem se tornando popular, visa divulgar as idéias e visões de determinada corrente de pensamento, seja de um grupo, movimento ou mesmo indivíduos. Dentre possíveis manifestos, podemos imaginar um manifesto feito por Vectorius, exigindo uma magia mais pragmática e “responsável”; ou ainda um manifesto contra a escravidão praticada no Império de Tauron.

Romances: De distribuição e consumo restrito a comunidades de grande e médio porte. Os romances contam histórias de diversos temas, sendo que as sagas de aventureiros são bastante populares. Histórias melodramáticas de amor são bastante populares entre o público feminino.

Textos Sagrados: São escrituras sobre o culto a uma divindade, podendo contar histórias sobre os feitos do deus ou de seus devotos, instruções para rituais ou comportamento exigido dos devotos, organização da hierarquia religiosa, etc. Alguns textos sagrados são bem antigos, e podem conter orações para a conjuração de magias divinas, ou o acesso a novos poderes divinos.

Uma pequena livraria em Valkária.

Alfabetização Universal – Conseqüências Sociais:

Pode-se dizer que graças à alfabetização e ao acesso aos livros, o artoniano médio possui maior acesso a cultura e informação que suas contrapartes da idade média terrestre. Mesmo que de forma lenta e limitada, textos estão em constante circulação pelos reinos, divulgando novas idéias e histórias. Através disto, os minotauros são capazes de passar sua doutrina aos povos conquistados pelo Império, enquanto a resistência divulga textos encorajando a rebelião!

Um povo mais culto é também um povo mais exigente, talvez seja por isso que a maioria dos governos cumpre “bem” o seu papel de proteger e auxiliar os cidadãos (nos grandes centros pelo menos, nas regiões mais distantes o abuso de lordes feudais ainda seria bastante comum). Como a alfabetização pelos servos de Tanna-Toh é feita para o idioma Valkar (o comum), podemos entender também porque este idioma se tornou tão popular.

Tanna-Toh é realmente uma deusa esperta. Graças à alfabetização, mais e mais pessoas têm acesso ao conhecimento, e em conseqüência, a deusa ! Conhecimento é poder. Isto é fato.

A imagem usada na abertura deste artigo pertence ao quadro “A Leitora”, do artista Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). A clássica imagem da prensa de Gutenberg foi encontrada na Wikipedia, e a imagem da livraria pertence a artista Julie.

9 thoughts on “Arton: Um Mundo de Leitores!”

  1. Clint Eastwood says:

    Porra, genial o artigo. Gosto desses textos de background sobre o cenário.

    Penso diferente quanto a invenção da prensa. Embora seja lícito supor que ela já foi inventada (afinal existem até mesmo armas de fogo no cenário) é provável que boa parte da reprodução de livros ainda seja feita por clérigos da deusa, como monges copistas. Só que usando magia para acelerar o processo.

    Além dos almanaques científicos devem existir enciclopédias, talvez versões escritas dos conhecimento acumulados por Helladarion, o artefato sumo-sacerdote de Tana-Toh. 🙂

    (AKA Google)

    1. Edu Guimarães says:

      Cheguei a pensar em monges copistas, inclusive como uma fonte de renda para as Igrejas de Tanna-Toh. Imagino que ainda existam tais ordens, mas diferente da Idade Média, a maior parte da população em Arton sabe ler, mesmo com magia deveria existir um exército de monges copistas para copiar baboseiras como os romances piratas de De Foe… achei inviável, pelo menos na minha visão de que magia em Arton é acessível, mas ainda assim um artigo caro…

      Imagino que livros copiados, em caligrafia bonita, ainda são bastante prestigiados, principalmente para textos importantes e de distribuição limitada, como documentos, grimórios, livros sagrados, codex de leis, etc. Enquanto livros de distribuição ampla: como almanaques, novelas e jornais, seriam impressos, assim como na época do Iluminismo.

      Bem lembrado a respeito das Enciclopédias, com certeza elas existem em Arton.

      1. Fernando BRauner says:

        Arton é um mundo de aventureiros, bem maior que qualquer outro mundo medieval. Existe um avenuterio pra cada 10 habitrantes. Em 100 nhabitantes Teriamos 10 aventureiros se4ndo que 50% seriam homens de armas 50 % de outras classes ( ou seja 2 gurreiros, 1, ranger, 1 barbaro e 1 palada ou monge) e 50% de outros (1 seriam clerigos, 1 seria ladino, e os 3 restantes seriam de quaisquer combinações de classes restantes).
        Ou seja pra cada 100 habitantes 1 clerigo. Dentre os 20 deuses, Khalmyr, Tauron, Valkaria e Tanna-Toh Teriam interesse em que as pessoas fossem intruidas, e dariam aulas emsuas congregações. Por n Razões, a ambição de melhorar a humanisdade levaria os clreigos de Valkaria a darem aulas, por ser justo que todo o conhecimento seja compartilhado de forma igual os cletigos de Khalmir lecionariam, Tauron não busca apenas a força fisica mas a intelectual e de moral tbm e isso levaria aos clérigos a fuinção de passar educação as crianças. alemd isso clerigos de Hinnyn fingindo ser qualquer um desses lecionariam.
        A cada 3000 pessoas teriamos clerigos de Todos os 20 deuses. Mais dos deuses benignos que malignos e mais dos civilizados que dos barbaros, digamos que a cada 3000 pessoas teriamos 10 clerigos pra educação. 3000 pessoas tem 15% de idosos, 20% de crianças e 65t% de adultos entre 16 e 45 anos. Então 20% de 3000 = 600 / 10 = 60 crianças por professor 2 turmas com 30 alunos, 2 turnos…
        Nada mau pra Arton.

  2. fellipesoares says:

    Simplesmente, show! Vocês estão me fazendo tomar gosto por Tormenta novamente.

    Estão de parabéns!

  3. @Matheus_Ulisses says:

    Genial o post.

  4. Rafael Klauz says:

    Gostei das informações! Agora posso melhorar minha aventuras, já que sou iniciante neste cenário magnifico!

  5. @leosouma says:

    Muito bom o artigo Edu…nunca poderia imaginar que fosse possível escrever tanta coisa (e boa), sobre um simples fato de a população ser alfabetizada. Meus parabens.. vc merece 5 estrelinhas XD /o/

    1. Matheus says:

      onde dá like aqui??? rsrs

  6. svinix says:

    Muito bom o texto. Obrigado por colaborar tanto com o cenário mesmo usando um tema simples.

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