Teoria da Magia

A exata natureza da magia em Arton nunca foi esmiuçada nos suplementos oficiais. Talvez porque a magia no cenário seja de fato inexplicável, fantástica e misteriosa. Talvez porque os autores tenham dado prioridade a assuntos mais importantes nos suplementos, ou estavam apenas com preguiça, ou tudo isso junto!

Mas… como um bom cientista chato, eu não me contento em admirar os mistérios, é preciso modelá-los e explicá-los! Com o tempo, fui desenvolvendo minha própria “Teoria da Magia Artoniana”, com base em reflexões, um pouco de Platão e Aristóteles, e nas explicações de outros cenários ;-).

Parte das ideias apresentadas aqui já foram publicadas num artigo da velha AdT 2.0, mas reescrevi praticamente tudo. Boa leitura!

O que é Magia?

  “É tanto ciência quanto arte, tanto realidade bruta quanto maravilha.”

– Manual do Arcano: A Magia em Arton.

Arton é um mundo regido por leis naturais. O sol nasce e se põe, o fogo aquece e ilumina, as maçãs caem, as estações do ano sucedem-se. No entanto, às vezes fenômenos inexplicáveis acontecem: medusas são capazes de petrificar com o olhar, magos criam fogo a partir do nada e através do poder dos deuses é possível até ressuscitar os mortos! Estes fenômenos os sábios chamam de “magia”.

Formalmente, magia pode ser definida como “singularidade capaz de alterar a realidade”, ou seja, é a capacidade de quebrar as leis da física tornando possível o impossível.

Muito se discute sobre a exata natureza desta “quebra”. Por ser um elemento recorrente no mundo de Arton, entender a magia significa entender o próprio universo. Os primeiros estudos sobre o assunto vêm dos registros élficos antes da fundação de Lenórienn, muitos dos quais são atribuídos ao lendário Galron (considerado por alguns como o primeiro mago).

Segundo a teoria vigente, tudo no universo é constituído de uma porção elemental e uma porção conceitual (por vezes conhecida como astral, ideal ou formal). Os elementos básicos (fogo, água, terra, ar, luz e trevas) se combinam para formar toda matéria e energia existente, mas isto só é possível graças a presença de conceitos que lhes dão forma, coesão, ou até mesmo alma, formando a chamada “trama da realidade”. Sem esta trama, o universo seria uma grande sopa de elementos disformes, ou apenas nada.

Desta forma, é possível alterar a trama da realidade através da manipulação dos conceitos, ideias e pensamentos que a formam. Magia é a capacidade direta de realizar este feito. Por exemplo, é possível transformar um punhado de árvores num navio usando apenas da força de vontade e do pensamento, dobrando a realidade e suas leis. Isso é magia.

Veja que ainda é possível realizar de forma indireta o mesmo feito descrito acima: a transformação de árvores num navio. Para isso precisamos de trabalhadores, ferramentas e tempo, mas antes de tudo isso é necessário que alguém tenha a ideia e vontade de fazê-lo. No fim das contas, as ideias e a força de vontade para realizá-las é que movem o mundo.

A Trama da Realidade

A maleabilidade da trama da realidade pode variar dependendo do local. Por exemplo, áreas antimagia possuem esta trama mais rígida, dificultando ou impossibilitando o uso de magias. Estas áreas podem surgir devido a acidentes, estranhos fenômenos ou pela conjuração de certas magias de abjuração (cujo efeito é manter a realidade num estado fixo).

áreas de magia caótica (comuns no reino de Wynlla) possuem o tecido da realidade mais instável, sendo difícil para o conjurador controlar a realidade à sua vontade, o que pode resultar em efeitos indesejados.

As áreas de Tormenta são um caso especial, pois na anti-criação lefeu a própria trama da realidade (ou anti-realidade) é lefeu, sendo impossível (ou extremamente difícil) sua alteração por magia.

Wynna, Deusa da Magia: sua existência garante a maleabilidade da trama da realidade em Arton, e a possibilidade de manipulá-la.

Wynna, Deusa da Magia. Segundo seus devotos, ela garante a maleabilidade e manipulação da trama da realidade.

Tipos de Magia

Concluímos que magia é manipulação dos conceitos que dão forma ao universo, é vontade sob a realidade. Esta manipulação é possível de muitas formas, sendo dividia em duas grandes categorias de acordo com sua fonte e natureza: magia arcana e magia divina.

Magia divina

Se os conceitos e ideias são os responsáveis por dar forma ao universo, os deuses são a própria personificação destes conceitos fundamentais, de modo que tem grande facilidade para moldar a realidade segundo suas convicções. Esta é a fonte da magia divina. Ao se devotarem a uma divindade (e consequentemente, ao que ele representa), os conjuradores divinos passam a ter acesso à parte deste poder.

Alguns estudiosos acreditam na possibilidade de obter a magia divina sem o intermédio de uma divindade, ao devotar-se diretamente a um conceito ou ideologia. No entanto, até hoje ninguém demonstrou que isso seja possível em Arton. Teoriza-se que uma personificação seja necessária para fazer a ligação entre ideia e devoto. Isso explicaria o surgimento de tantos deuses menores a partir desta necessidade de se obter uma conexão.

Há também casos de criaturas capazes de realizar a magia divina sem o intermédio dos deuses. Estas criaturas normalmente são espíritos como fadas, demônios e celestiais, que encarnam, numa escalar menor, os conceitos e ideias que formam o universo.

Enquanto a magia arcana depende da força de vontade do conjurador, a magia divina depende da fé, compreensão e alinhamento do conjurador com os aspectos de sua divindade. Conforme avança nesta compreensão, maior será o poder destes conjuradores.

Magia arcana

Não tendo o intermédio de uma divindade, o conjurador arcano usa sua própria força de vontade para dobrar a realidade ao seu redor. Por este motivo eles são mais versáteis que os conjuradores divinos, pois não estão subordinadas a conceitos pré-estabelecidos por uma divindade.

Por outro lado, a magia arcana é rudimentar, manipulando facilmente elementos brutos e conceitos simples, mas tendo dificuldade em trabalhar com alta complexidade (algo facilitado quando há intermédio de deuses). Isso explica as limitações da magia arcana em relação à cura e a manipulação de plantas, animais e espíritos.

Feiticeiros herdam parte do instinto e presença de espírito de criaturas de grande poder e força de vontade, como dragões e gênios. Para eles dobrar o universo a sua mercê é algo natural – ou mesmo fisiológico – utilizando a magia de forma espontânea.

Já os magos não contam com este poder e força de vontade natural, mas os obtém através do treinamento árduo de suas mentes. Não contando com o instinto, eles desenvolveram metodologias e modelos altamente complicados, que uma vez memorizados, os permitem alterar a realidade ao seu redor.

Problemas e exceções à teoria.

A magia dos bardos

Os bardos são um caso interessante por sua habilidade de conjurar os dois tipos de magia. Eles podem realizar algumas orações e devotarem-se a alguns conceitos (ou “rezarem para as estrelas”, segundo alguns), ao mesmo tempo em que estudam um pouco de modelos de conjuração arcana, fazendo tudo isso de forma improvisada e espontânea!

Embora estas improvisações os tornem mais versáteis, não permite que os bardos se aprofundem seriamente na conjuração de magias. Este feito só é possível graças a forte presença de espírito e sorte dos membros desta classe, que alguns dizem serem favorecidos de Tanna-Toh, Deusa do Conhecimento.

Criaturas com habilidades mágicas

Há certa discussão se as habilidades mágicas de certas criaturas – como o olhar petrificante das medusas – se enquadrariam em qual categoria de magia. Alguns estudiosos definem tais habilidades como uma suposta nova categoria de magia: a fisiológica, onde os órgãos e a fisiologia da criatura seriam capazes de alterar a realidade, independente da sua vontade. Contudo, a grande maioria dos sábios enquadram tais poderes como arcanos, por virem diretamente da criatura.

Outros alegam que estas criaturas obtêm seus poderes pelo intermédio de um conceito que encarnam, como unicórnios (pureza), súcubos (luxúria) ou elementais (elementos?), de modo que a magia seria divina. Após os recorrentes e longos debates sobre estas questões, a maioria dos sábios costuma a mudar a discussão para temas mais simples, como se balrogs balores possuem ou não asas, e qual seria o comprimento das mesmas.

Talude e Vectorius defendem visões divergentes sobre a natureza e função da magia.

Os arquimagos Talude e Vectorius defendem visões divergentes sobre a natureza e função da magia.

Correntes de pensamento sobre a magia

As teorias descritas acima são aceitas pela maioria dos conjuradores, mas existem diversas correntes de pensamento sobre a magia, sua natureza e funcionamento.

Pensadores ateus de Salistick, por exemplo, não acreditam na existência da magia divina ou que os deuses sejam capazes de fazer o intermédio teorizado. Para eles os conjuradores divinos usam de sua própria força de vontade turvada por crenças tolas. Na melhor das hipóteses, sua devoção os permite acessar alguns dos conceitos fundamentais do universo, mas os deuses não seriam realmente necessários como link.

A maior divergência de pensamentos ocorre entre os magos no que diz respeito ao papel de Wynna, Deusa da Magia, no funcionamento da magia arcana, ou mesmo na magia como um todo:

Para a Corrente Clássica (ou Tradicional), Wynna é a fonte de toda a magia em Arton, sendo ela que mantém a trama da realidade maleável o suficiente para que possa ser manipulada. Se a deusa desaparecesse, a trama da realidade tornar-se-ia tão rígida que apenas os deuses e criaturas de grande poder seriam capazes de alterá-la. Alguns acreditam que até mesmo a magia divina acabaria, enquanto outros mais alarmistas afirmam que o próprio universo entraria em colapso.

A grande maioria dos magos é adepta desta corrente, sendo devotos de Wynna e vendo a magia como um dom universal, que deve ser compartilhado e jamais negado. Por esses motivos são também chamados de wynnaístas ou dadivistas.  O arquimago Talude, diretor da Academia Arcana, é um dos mais fervorosos defensores desta corrente.

Já os adeptos da Corrente Modernista (ou Pragmática) veem a magia como uma força natural e intrínseca de Arton, não estando personificada em Wynna. A deusa no máximo representaria a prática da magia, mas não a fonte deste poder em si. Para eles a ideia da magia como dom divino é absurda! Segundo esta visão, a magia é um recurso, uma ciência e uma ferramenta. A ser administrada de forma responsável pelos mais capazes. Você daria uma arma ou um tesouro para qualquer um?

Apesar de chamar-se modernista, esta corrente é relativamente antiga e sempre foi bastante difundida no reino ateu de Salistick, mas só ganhou destaque recentemente graças ao arquimago Vectorius, seu mais célebre e ferrenho defensor. Por este motivo os adeptos desta corrente são por vezes chamados vectorianos.

Concluindo…

A maior parte dos elementos aqui apresentados são muito abstratos e teóricos, mas podem ser utilizados em jogo de maneira sutil. As correntes de pensamento sobre a magia e suas divergências são ganchos óbvios, modelando como um personagem conjurador vê seus próprios poderes.

Por sua natureza conceitual, a magia em Arton está sob todas as coisas: dos grandes eventos aos pequenos gestos. Em Holy Avenger um amor verdadeiro foi capaz de anular uma maldição rogada pelos deuses! Tenha isso em mente e será capaz de transformar a magia num recurso de trama valioso.

As imagens usadas neste artigo são propriedade da Jambô Editora.

11 thoughts on “Teoria da Magia”

  1. Chrjstjano says:

    Excelente texto; me deu idéias muito boas para tornar mais profundos os personagens que lidam com magia no cenário e para narrar cenas de debates e argumentações entre estes mesmos personagens, ou quaisquer outros que discutam o assunto.

  2. jirayajonny says:

    Uma daquelas matérias que te fazem pensar no que você está fazendo na mesa…

    Muito Bom!

  3. Rodrigo Quaresma says:

    Eu gosti :] Só não contruibuo na "discussão" porque eu nunca penso nesses detalhes xD

  4. Powzin/Hebert says:

    Sempre quis ler este texto, porém quando descobri o blog ele estava em processo de mudanças, de forma que ele se perdeu. Obrigado, o texto ficou ótimo!

  5. Khrjstjano says:

    Só pra complementar o comentário: a parte sobre as correntes de pensamento sobre magia ficaram o máximo do máximo. Dão o tom erudito que se precisa para discussões filosóficas entre magos de alto nível (não só na ficha, mas em conhecimento de fato). Vou usar isto com toda certeza na próxima sessão do meu grupo atual. =D

  6. Douglas says:

    Muito interessante. Quando li sobre discussões de Teoria de magia (no Livro Terceiro Deus) achei uma faceta sobre magia que não havia pensado. E agora vejo essa mesma faceta erudita sobre magia. Bem interessante. Edu guimarães, Você também leu sobre magia no Mundo das Trevas? (Mago a Ascensão) dizem que lá há um verdadeiro tratado filosófico sobre magia.

    1. Edu Guimarães says:

      Oi Douglas, qual o trecho do Terceiro Deus a que você se refere?

      Eu li Mago a Ascensão há muito tempo atrás, e com certeza a leitura influenciou muito esse texto (leia se puder). Outro livro que acredito ter me influenciado bastante foi Forgotten Realms do D&D 3ª edição. No entanto, é difícil pra mim dizer exatamente onde ou como fui influenciado, pois tá tudo misturado na minha cabeça e não tenho estes livros.

      1. Alex Gabriel says:

        ~le eu se metendo~
        Quando Edauros e Ydalina vão a Academia Arcana e o cara q atende eles responde as perguntas deles antes dele as fazerem. Ai Edauros não faz a pregunta dele depois de ser respondida "sá pra bagunçar as coisas". O cara convida ele pra uma aula de Teoria da Magia, pra debater como ele respondeu a pergunta se ela não foi feita.
        A parte é mais ou menos assim XD

  7. Danilo Coêlho says:

    Achei a teorização maravilhosa! Há muito tempo também refleti um pouco sobre Teoria da Magia e também já fiz certas abstrações. O conceito de Trama da Realidade dialoga com o conceito de Paradigma de Mago: A ascensão. Achei-o bastante operante, mas minha proposta de classificação parte da segunda.
    Graças ao conceito de Mago, extrapolei a reflexão usando conceitos da linguística estrutural. Vejamos se consigo me fazer entender. Nessa análise eu chamara a trama de Sintagma Universal. O Sintagma seria um arranjo das "leis" conhecidas (o sol é amarelo, a água evapora a 100º C, humanos não voam etc) no qual a criação se estruturou, cada uma dessas leis é chamada de paradigma.
    Poderíamos exemplificar o Sintagma universal como um arranjo X-Y-Z, onde cada letra representa um dos infinitos paradigmas. Sem magia o Sintagma Universal é o que é e não pode ser alterado mas através dela, altera-se, ainda que temporariamente, certos paradigmas. Assim poderíamos ter, por exemplo, uma alteração de ordem X – Y – A. Isso significa dizer que o magista compõe um novo sintagma ao alterar um paradigma qualquer através dos "atos de magia" (nome geral para quaisquer alterações no Sintagma).
    Estes conceitos explicariam as peculiaridades dos outros planos de existência: Eles são compostos por outro conjunto de paradigmas, ou seja, compões um outro Sintagma com regras próprias. As áreas antimagia e de magia caótica, por extensão, também seriam anomalias do Sintagma.
    Também alinhado com a sua visão, o que eu entendo por "ato de magia" é uma aplicação de vontade. Entretanto, essa aplicação é processada de uma forma externa à dinâmica do Sintagma. Por exemplo: Podemos construir um barco através de transmutação ou com carpinteiros e esforço árduo, entretanto só o primeiro método será considerado um ato de magia, pois, embora o efeito/resultado seja o mesmo (a construção do barco) processo será distinto e acima de tudo "assintagmático".
    O assintagmatismo (que também pode-se chamar "elemento maravilhoso") resolve o corte entre magia e arcana. Os processos assintagmáticos a que recorrem os dos tipos de conjuradores é restrito a um número reduzido de alterações paradigmáticas, por isso a diferença entre os dois sistemas.
    Ufa, espero que tenha dando pra entendeo.

  8. Edu Guimarães says:

    Ufa, terminei de ler! 😀 Deu para entender sua ideia sim (embora o penúltimo parágrafo tenha ficado confuso). O conceito de sintagma é interessante e incorpora bem a questão da complexidade da magia e porque magos devem estudar tanto.

  9. Matheus says:

    É a primeira vez q vejo uma discussão do tipo.
    Foi meu primeiro texto no site e curti muito. Obrigado

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