Arton: um panteão em (des)equilíbrio?

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Em Dragonlance, a importância do equilíbrio entre bem e mal é tema recorrente. Isso é tão importante que Paladine (o principal deus bondoso) abdicou de sua divindade após a morte de sua rival Takhisis, mantendo o equilíbrio entre o número e forças do Bem e do Mal.

Embora esta relação de equilíbrio não seja regra na maioria dos cenários de RPG, me peguei pensando que o panteão artoniano possui certo desbalanço em relação as tendências. Dada a importância dos deuses maiores no cenário, tal “desequilíbrio” deve gerar diversos efeitos no mundo. Este pequeno ensaio reflete sobre tais efeitos.

Já deixo avisado que este artigo é um “papo de boteco”. Convido os leitores a exercitarem possibilidades e ideias, e só.

Bem, Mal, Ordem e Caos

Como diriam nos artigos científicos, um bom gráfico vale mais que mil palavras:

Tendências e inclinações do Panteão

Tendências e inclinações do Panteão

OBS: Não reparem nas posições gradativas de cada deus, elas são fruto da minha opinião sobre eles e do fato de que eu não podia colocar dois deuses numa mesma posição.

Olhando o gráfico percebemos logo de cara que Arton possui apenas 5 deuses malignos contra 8 neutros e 7 bondosos. Como esta configuração tendendo ao Bem pode refletir no mundo? Resposta simples: Arton é acima de tudo “um mundo de heróis” (Manual Básico, pg.17). O cenário está cheio de problemas, violência e injustiças, mas sempre há a esperança de que heróis virão para salvarem o dia, e muitas vezes eles triunfam! Os personagens jogadores são portanto, parte de um sistema de engrenagens muito maior.

Pensando bem… em várias histórias o vilão tem um plano infalível e previu todos os fatores que podem atrapalhá-lo, mas ainda assim não foi capaz de lidar com “aqueles aventureiros enxeridos e seu cachorro idiota”. Uma explicação para isso seria que há certa intervenção divina em favor dos heróis (representada por Pontos de Ação, por exemplo). Lidar com estas intervenções e as consequências dela podem gerar ideias para várias aventuras e auxiliar os jogadores “sem forçar a barra”. Os deuses podem falar com os heróis através de sonhos, colocar aliados em seu caminho na hora certa, gerar pequenas coincidências, etc.

Isto no entanto não faz de Arton um mundo cor-de-rosa. Os deuses malignos podem ser minoria, mas a maioria das divindades também não é bondosa, e sim neutra, mostrando que o cenário possui seus tons de cinza. Também vale lembrar que algumas divindades neutras aparentam estarem mais inclinadas ao mal que ao bem – como Tenebra e Hynnin – os sumo-sacerdotes de ambas são malignos e não me lembro de nenhum PdM bondoso que fosse servo destes deuses.

Já no eixo moral não há desequilíbrio atualmente: com 7 deuses caóticos, 6 neutros e 7 ordeiros, mas é interessante notar que nem sempre foi assim: antes da troca de Glórienn (Caótica e Bondosa) por Kallyadranoch (Leal e Maligno) o Panteão era ainda mais inclinado ao Bem e levemente inclinado ao Caos.

O retorno de Sszzaass e a ascensão de Tauron à liderança do Panteão são outros elementos que refletem uma mudança recente no balanço de forças. É como se ao longo destes 15 anos Arton fosse inicialmente um mundo de heroísmo, liberdade e irresponsabilidade aventureira, mas que cedeu um pouco ao cinismo e ao pragmatismo. Os elementos iniciais ainda estão aqui, só um pouco menos luminosos.

Ganchos viajantes

  • Sszzaass convence um ou mais deuses bondosos a não intervir em favor dos aventureiros, em “nome do equilíbrio de forças” e para que eles “provem seu valor”.
  • Alguns deuses neutros têm cada vez se posicionado mais em favor de seus servos malignos. Talvez isso seja uma reação para manter o equilíbrio entre as forças do Panteão.
  • Podemos esperar mais mudanças no futuro, quando Mestre Arsenal (que em sua última ficha era Leal e Maligno) substituir Keenn (Caótico e Maligno) como Deus da Guerra! Isso significaria um cenário tendendo levemente a Ordem. Talvez esta disciplina seja algo necessário no futuro, com um mundo em guerra total contra a Tormenta.
  • Talvez num passado distante houvesse o tal equilíbrio entre as forças do Panteão, mas algo aconteceu em tempos primordiais que mudou isso, com o extermínio ou exílio de algumas divindades malignas. E se estes ex-deuses conseguissem voltar?
  • Sartan, deus menor da Destruição (e vilão da Saga do Disco dos Três), seria na verdade um destes deuses maiores exilados. Ele só estaria tentando voltar ao seu lugar de direito.
  • Outra teoria para o desbalanço é que na verdade algumas divindades que se dizem bondosas ou neutras na verdade seriam malignas! Talvez esta mudança de tendência tenha sido forçada por algum evento e o processo pudesse ser revertido. Imagina um deus antes bondoso se revelando um psicopata?

Bastidores

Pode não parecer, mas escrever esse papo de boteco deu mais trabalho que eu pensei. Inicialmente também iria incluir uma reflexão sobre o desbalanço entre feminino e masculino no Panteão, mas como o texto começou a ficar grande, fica para uma próxima.

A imagem usada neste artigo pertence a Jambô Editora. O gráfico apresentado é de minha autoria.

27 thoughts on “Arton: um panteão em (des)equilíbrio?”

  1. Calvin says:

    Eu também já tinha reparado isso, exatamente ao comparar com Dragonlance, um dos poucos outros cenários que possuem "panteões fechados". Sempre achei que tendo exatamente 20 deuses, eles deveriam ser mais igualmente divididos. Mas aí pensei que uma divisão igualitária entre todas as tendências mostraria uma tendência "universal" à ordem e talvez não seja essa a intenção do cenário em si. Venho acompanhando a evolução do cenário desde que surgiu… Tillian provavelmente era Caótico e Bom (maioria dos deuses gnomos em cenários fantásticos) ou Caótico e Neutro. E Kally era Leal e Mau. Foram substituídos por um deus Caótico e Mau e um Caótico e Neutro, mostrando uma mudança cósmica em favor do Caos (e talvez do mau). Com a Queda de Glórien, outra mudança, reajustando o equilíbrio entre Ordem e Caos e incluindo mais um nas fileiras do Mau. Essas mudanças devem ser sempre lentas, afinal, são mudanças maiores no cenário. Eu, quando Mestre de Jogo, dou uma ajustada nas tendências. Normalmente jogo Tenebra para Neutra e Má e Alihanna para Neutra. Mitiga o desequilíbrio, mas ele se mantém…

  2. Douglas MEllo says:

    Ótimo papo de boteco!!! Enquanto o taverneiro preenche nossas canecas de cerveja, vou dar meus dois centavos… 😀

    Acredito que antes da Tormenta, quando Kally e Khalmyr eram as grandes forças do Panteão, o equilíbrio de Arton era apenas o Bem x Mal (ambos são Leais). Arton não era ainda "um mundo de heróis".

    Com a criação dos Lefeu e o exílio de Kally, o eixo da Ordem se perdeu, Nimb tornou-se o novo rival de Khalmy, criando um desequilíbrio considerável (Leal e Bom X Caótico e Neutro) o suficiente pra jogar o mundo de Arton na "era dos Heróis".

    Embora o lado maligno pareça defasado, podemos considerar a chegada da Tormenta como uma tentativa de retornar ao equilíbrio antigo. Toda a história entre a chegada da Tormenta, o retorno de Kally, e o início das Guerras Táuricas acontece muito rápido. O eixo antigo nunca é restaurado em tempo de ser sentido em Arton. Agora Tauron e Nimb dividem a liderança, causando um eixo neutro (Ordeiro Neutro x Caótico Neutro).

    Em que tipo de mundo Arton está agora? Será que esse é o fim da Era dos Heróis? Como mestres só temos a aproveitar todas as possibilidades que o cenário nos proporcionou…

  3. Douglas Mello says:

    Twitter: @tizocking

  4. @PimeT800 says:

    Muito bom o texto e o gráfico!

    Parabéns

  5. @projvts says:

    A minha campanha atual é calcada na volta de Leen (sim, Leen) para o panteão.

    #ficaadica

    1. Edu Guimarães says:

      Interessante. A dualidade Ragnar/Leen sempre gera diferentes visões. No meu caso eu adicionei mais elementos de Leen ao Ragnar, deixando-o menos "clone do Thor" e tornando-o uma entidade mais maliciosa.

  6. @haag_f says:

    Muito interessante, porém eu tenho algumas visões pessoais diferentes para vários deuses.

    1- Keenn é o senhor da guerra, ou seja, um soldado. Como soldado ele não pode aceitar o caos, então eu o considero Leal/Mal.

    2- Tauron não é neutro, ele é mal. Na minha opinião, Keenn, Tauron e Kally são iguais.

    3- Sszzaass não posse ser neutro, ele gosta de ver "o circo pegar fogo" para se divertir, então eu o considero caótico. Mas talvez Caos/Mal fique muito pesado se compararmos ele com Megalokk e Ragnar.

    4- Minha opinião mais polemica fica com Khalmyr e Thyatis. Li alguns materiais e não consigo ver estes dois como deuses bondosos. Eles são justos, isso é fato, mas justiça não quer dizer bondade. Para mim eles são Leal/Neutro, pois priorizam a ordem antes da bondade.

    1. Edu Guimarães says:

      Podemos dizer que vc possui uma visão mais cínica dos deuses.

      Na visão oficial, Keen engloba aspectos dos soldados, mas predomina-se os aspectos relacionados a carnificina e selvageria das guerras, tal como Ares na mitologia grega. Ele não se importa com a forma de guerrear, mas com a guerra em si mesma. Já Thyatis é o cara das segundas chances, ele acredita em redenção, por isso é uma divindade bondosa.

      1. @haag_f says:

        Essas duas questões que trouxe sobre Keen e sobre Thyatis são interessantes para criar uma nova visão sobre estes deuses. Gostei muito, principalmente a de Keen, pois honestamente já estava cansado de usar apenas Ragnar e Megalokk como "super-vilões".

        Em minhas histórias os deuses sempre tem parte importante, mestrei a um tempo uma história sobre a volta de Kally, antes do material oficial ser lançado. Nela eu fiz de Kally um aventureiro manipulador que e cruel.

  7. Shinka says:

    E se Valkaria fosse maligna antigamente?
    Ela não é deusa dos heróis, mas dos aventureiros, da ambição e dos humanos .
    A ambição muitas vezes é levada a um ponto que não pensa no bem geral e os aventureiros (principalmente alguns jogadores) muitas vezes só pensam em matar-pilhar-destruir.

    1. Edu Guimarães says:

      Não é uma ideia ruim… Talvez os humanos tenham sido uma raça mais cruel no passado, como um reflexo disso. De fato, não faltam jogadores para comprovar sua teoria 😛

  8. Alessio Esteves says:

    Cara, curti muito sua análise!

  9. Ladino - Tiago Maio says:

    Não me soa bem Kahlmyr seja LB. Por se tratar do Deus da justiça acredito que LN estaria mais apropriado.

    1. Edu Guimarães says:

      A questão do alinhamento de Khalmyr entre LN e LB é bastante comum nas mesas que participei. Na versão oficial Khalmyr não é uma justiça cega e insensível, ele representaria um ideal de justiça e lei: que é proteger as pessoas e garantir o bem estar de todos através da ordem, especialmente os indefesos. Obviamente isso acaba gerando o "conflito padrão-paladino", onde as leis nem sempre funcionam como deveriam.

  10. Lobo Branco says:

    Já que ninguém polemiza com esse povo…..Tanna Toh é do mal….
    Considerando a trilogia tormenta ela é a principal responsável pela invasão lefeu e pelo retorno do terceiro.
    Bom, minha opinião.

    1. Edu Guimarães says:

      Polêmica aberta! 😀

      Pra mim a culpa pela Tormenta é de todos os deuses e ao meu ver os lefeu iam chegar em Arton cedo ou tarde, dada suas origens. Agora, imaginar que Tanna-Toh possa ter manipulado Glórienn em nome de conhecimentos perdidos (A Revolta dos Três, por exemplo), é algo assustador 😮

  11. Andrey Farias says:

    Tem algumas (só algumas) colocações pra mim que não parecem muito corretas, como eu colocaria:

    Khalmyr: (Bom, Leal)
    Nimb: (Neutro, Caótico)
    Tauron: (Mau, Leal)
    Kallyadranoch: (Mau, Leal)
    Oceano: (Neutro, Neutro)
    Keenn: (Mau, Caótico)
    Wynna: (Bom, Neutro)
    Hyninn: (Neutro, Caótico)
    Megalokk: (Mau, Caótico)
    Alihanna: (Bom, Leal)
    Ragnar: (Mau, Caótico)
    Tanna-toh: (Neutro, Leal)
    Lena: (Bom, Neutro)
    Marah: (Bom, Leal)
    Lin-Wu: (Neutro, Leal)
    Azgher: (Neutro, Leal)
    Tenebra: (Neutro, Caótico)
    Valkaria: (Bom, Caótico)
    Szzaass: (Mau, Caótico)
    Thyatis: (Neutro, Neutro)

    Desse jeito seria:

    ÍNDOLE: 6 bons; 8 neutros; 6 mals.
    MORAL: 8 leais; 4 neutros; 8 caóticos.

    Creio que a Glórienn poderia ser classificada como (Bom, Caótica), totalmente inverso à Kallyadranoch (Mau, Leal) sendo assim, creio que antes a bondade prevalecia sobre a maldade, e o caos sobre a ordem.
    Porém, desde o retorno do Terceiro, pode-se dizer que Arton chegou à um equilíbrio dentro do Panteão (mas vale lembrar que como o atual líder é "Mau, Leal", podemos crer na possibilidade de um desequilíbrio tendendo às virtudes daquele que comanda);

    1. Shinka says:

      Tauron tem aquela ideia de que os mais fortes devem proteger os mais fracos, por isso não dá para considerar ele mal.

  12. Carlos says:

    Andrey, tenho que discordar com relação a Wynna…
    A magia não pode ser considerada só uma ferramenta neutra *tosse*Vectorius*tosse*tosse* .. . ah, essa gripe… enfim.
    A própria deusa diz que criou a magia para ajudar os outros, e fazer as pessoas felizes… Por isso Wynna tem que ser Caótica e Boa.

    1. Shinka says:

      Mas ela aceita seguidores malignos também pois acredita que todos devem ter acesso à sua dádiva, então tem que ser neutra.

      1. Edu Guimarães says:

        Concordo com o Shinka – Wynna presa muito mais a liberdade de escolha do que como seu dom deve ser usado – mas esse aspecto mais "Niele" dela tb me confundiu, eu acreditava q ela era CB até reler os livros 😉

        Talvez nomear Talude e Niala como seus maiores representantes seja uma forma dela compensar um pouco. Inclusive, a retirada de Gwen do posto de sumo-sacerdote pode ser influência da Niele sobre a deusa (mas na minha mesa, Gwen continua como sumo, pq acho + interessante).

  13. Rhe says:

    Faz um boooom tempo que não jogo, pelo que entendi, Gloriem a deusa dos Elfos caiu foi isso? Ela não é mais membro do panteão? Desculpem cair de para quedas aqui, mais de muita coisa me lembrei ao ver os posts.

    1. Ajax says:

      Pois é, Durante a luta da Companhia Rubra contra Ahadarak, o elfo Syrion abriu um portal pedindo a intervenção da Deusa do Elfos. Para o horror do elfo, o reino de Gloriem estava sobre ataque também. Ela fugiu e virou comcubina de Tauron.

  14. Douglas Duque says:

    Sempre imaginei que o equilíbrio do panteão se dava pela sua liderança, no passado antes da Revolta dos Três, o panteão estava em equilíbrio, pois os líderes eram Khalmyr (a boa justiça, "direitos humanos" essas coisas) e Kallyadranoch (a má justiça, tirania, etc…), sendo que havia outras dualidades no Panteão, mas voltadas pelo conceito e domínio que pela sua tendência.

    Szzaass X Lena (malícia e pureza)
    Allihanna X Megalokk (animais e monstros)
    Azgher X Tenebra (dia e noite)
    Glórienn X Valkaria (perfeição e ambição)
    Tillian X Tanna-Toh (criatividade e conhecimento)
    Keenn X Marah (guerra e paz)
    Nimb X Lin-Wu (inconstância e inabalável)
    Tauron X Szzaass (força e sagacidade)
    Oceano X Wynna (neutralidade)

    Sendo que esse eixo poderia variar de acordo com a ocasião.

    Por isso podemos dividir a história de Arton em quatro Eras:

    1ª: Era do Trovão: Allihanna X Megalokk: os animais (todos incluindo humanoides) contra monstros;

    2ª: Era dos Reis: Khalmyr X Kally: os bons reis contra os tiranos;

    3ª: Era dos Heróis: Khalmyr X Nimb: Arton contra os Lefeus

    4ª: Era dos Exércitos: Tauron X Nimb: Guerras Tauricas, Aliança Negra, Vingança Élfica.

    Poderia considerar a liderança de Tauron e Nimb para uma liderança mais equilibrada como:

    Kallyadranpch X Valkaria (LM x CB)

    É isso

    1. Andre Esteves says:

      concordo totalmente.

  15. Andre Esteves says:

    Adorei o texto, muito pertinente a conversa sobre o tema.

  16. @Prof_Bruno81 says:

    Só queria fazer uma correção ao post. Paladine se sacrifica para deter Takhisis, a morte dela foi possível devido à sua perda de poder divino.

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