Conto: O Caminho para Doherimm (Parte 3 de 3)

Durante um tempo que não consegui calcular permaneci em meio às trevas, banhado apenas pela luz trêmula dos cristais distantes. Não sabia mais o que fazer, havia me resignado a acreditar que eu também morreria ali.

Esquecido pelo mundo e pelos deuses.

Foi quando ouvi a voz tossida do anão – Venham! Venham! Ele está aqui! Finalmente o encontrei! O templo!

Então uma luz surgiu. Não uma luz em meio ao breu, mas dentro de mim.

Yigdrarrim conhecia os riscos o tempo todo, mas nos iludiu com suas promessas. Ele fora o responsável por nos colocar naquela missão suicida acreditando que jovens inexperientes como nós teriam êxito onde talvez até mesmo grandes heróis tivessem fracassado ou se acovardado.

O que eu tinha que fazer me pareceu bem simples: Matá-lo.

Desembainhei novamente minha espada, que estava sob o efeito do encantamento de luz. Ela descortinou o meu caminho tornando-o visível novamente. Segurava sua empunhadura no meu braço direito enfaixado e não podia contar com ela para dar cabo daquele que agora eu pretendia eliminar.

Felizmente eu ainda tinha meu escudo.

Segui pela passagem além dos cristais e após andar um pouco me deparei com uma imensa antecâmara. A construção era pequena, mas impressionante. Demonstrava a arquitetura retorcida e curva dos templos de Tenebra e era feita com os ossos das mais diferentes criaturas.

Subi as escadas, e adentrei seus imensos portões de marfim abertos, chamando pelo nome do anão. Sabia que a cada minuto minha vida poderia ser ceifada por uma das mortais armadilhas que costumam existir naquele tipo de construção, mas todas que eu encontrei pelo caminho pareciam ter sido desativadas há bastante tempo atrás.

Andei pelo que me pareceram longas horas, entretanto, por mais que eu o chamasse, não encontrava nenhum sinal do anão.

Foi quando cheguei à nave principal e avistei o altar. Sob a luminosidade de fungos fluorescente doentios, filtrada por uma espécie de vitral verde, um artefato perfeitamente esférico flutuava.

O Orbe de Anknarah.

A coisa disparou um raio de magia profana sobre mim assim que tentei me aproximar. Usei meu escudo para aparar a rajada que me lançou ao chão, e então novamente me pus de pé.

Notei Yig jogado num canto.

O anão parecia um cadáver, mas ainda se mexia. Sua pele estava acinzentada e cheia de pústulas nojentas. Em alguns pontos era tão fina que podia ver seus ossos atravessando-a. Sangue escorria por sua boca e pelas cavidades que outrora foram seus olhos.

– Rápido meu jovem! Eu fui atingido – disse com uma voz etérea que pareceu vir do além – Preciso do artefato! Apenas com ele poderei trazer nossos amigos de volta. Rápido, traga-o para mim!

Não tinha motivos para confiar no anão, mas se o que ele estivesse dizendo fosse verdade, se com o poder do Orbe eu pudesse ressuscitar meus camaradas, então eu poderia ter paz e uma vida novamente. Não podíamos ter chegado tão longe, até o nosso destino, para fracassar daquela maneira.

Era a minha única chance.

Corri em direção ao artefato com todas as minhas forças defletindo cada uma das poderosas rajadas que ele disparava sobre mim. Podia sentir o impacto reverberando sobre o bronze do meu escudo, que se dobrava sobre o meu braço.

Enfim consegui chegar até o altar e golpear a esfera flutuante com o escudo. O orbe despencou e rolou pelo chão. As rajadas e o brilho que emitia cessaram imediatamente.

Corri para pegá-lo, mas quando minha mão o tocou, outra mão, cadavérica, se posou sobre a minha.

Olhei para o ser deformando em que havia se transformado Yigdrarrim Lordheinem VI.

– Obrigado meu amigo! Precisava que um ser vivo tocasse o orbe, rompendo o feitiço que o protegia. Esse anão se recusou quando pedi que o fizesse, mas chegou perto o bastante para que eu o matasse e infectasse seu corpo com um fragmento de minha alma. Agora tenho o que me pertence de volta! É chegada a hora que eu deixe essa forma decadente. Um corpo novo. Você me servirá bem!

Vi o anão se deteriorar, virar cinzas. E recuei assustado. O orbe começou a brilhar novamente. Ao meu redor pude observar uma névoa fétida se transformar em um jorro vaporoso enquanto serpentava pelo ar.

O miasma se infiltrou por minhas narinas, boca e ouvidos e pude sentir enquanto ele se arrastava para dentro de mim. Tudo escureceu e de alguma forma percebi que minha vida havia terminado naquele momento.

 …

Acabei de contar a minha história. O juiz em sua tribuna sacudiu a cabeça em desaprovação.

– Essa narrativa floreada não faz sentido algum humano. Mesmo que você tivesse sobrevivido de alguma maneira miraculosa ao mal que enfrentou dentro do templo abandonado, como poderia ter chegado até aqui? Os túneis que descreveu estão muito longe! E as passagens que levam ao nosso reino estão infestadas pelos beijos-de-Tenebra. Não poderia ter simplesmente andado até aqui e sobrevivido. – ele disse.

– O anel. Talvez eu tenha usado o anel mágico do anão. – respondi, confuso.

– Não encontramos nenhum anel com você quando o revistamos. – resmungou.

– Compreendo, então. Acho que finalmente compreendo.

– O que compreendeu?

– Eu não sobrevivi!

O anão esbravejava, indignado, impaciente.

– Sua vida está sendo decidida nesse tribunal e você ousa insultar nossa inteligência e desperdiçar nosso tempo fazendo piadas?!

– Não é uma piada! Deixe que eu explique. Eu mesmo não compreendia há alguns instantes atrás. Todas essas memórias, essas lembranças que eu sentia tão vivas dentro de mim… Não me dizem mais nada. Elas não pertencem a mim. Pertencem ao homem que matei.

Elas se misturaram as minhas, me confundiram, me infectaram. Fizeram que eu acreditasse ser alguém que eu não era. Mas tudo isso era parte do disfarce. Agora não preciso mais me esconder. Lembrei exatamente o que vim fazer aqui. – um sorriso se desenhou em meu rosto e uma alegria incontida se apossou de mim.

– Não irei mais desperdiçar meu tempo precioso. – continuei falando – Tenho mais o que fazer. Infelizmente não posso dizer o mesmo sobre vocês. Seu tempo chegou ao fim. Hora de dar o veredicto. Eu os declaro culpados! Eu os condeno a uma morte dolorosa. Mas não se preocupem. Ela será rápida. – terminei de dizer, sem poder conter as gargalhadas.

Vi o juiz se levantar e erguer com os braços o martelo, uma expressão de puro horror em seu rosto. Os guardas ao meu lado tentaram alcançar suas armas. Os sacerdotes no júri começaram a entoar preces.

Mas era tarde demais.

 …

Os cadáveres daqueles que haviam sido meus oponentes se ergueram do chão do salão destruído. Mas não havia mais nem vida, nem espírito ali. Eram meros fantoches animados pela minha magia negra.

Os primeiros soldados do exército que eu precisaria reunir para tomar de volta o que é meu.

Experimentei os movimentos do meu novo corpo, tal qual ele fosse uma roupa que acaba de ser vestida. Em um pedaço quebrado de vidro no chão vi o reflexo do anão arrogante que acreditou que poderia ser o meu algoz.

– Já tenho de volta a minha alma! No tempo devido recuperarei também o meu verdadeiro corpo. Por enquanto acho que esse servirá. – disse olhando para os meus inexpressivos lacaios.

– Bom agora para o próximo passo. Tenho algumas contas para acertar com alguns daqueles que servem a minha deusa. Eles realmente não fazem idéia como é ter ficado confinado por todo esse tempo! – andei pelo salão e tomei em minhas mãos o martelo de batalha que jazia enterrado em meios aos destroços.

– Depois, ouvi dizer que as coisas andam agitadas por aqui. Tem certeza que vocês podem mesmo se dar o luxo de uma guerra civil enquanto aos portões de seu reino batem outras raças gananciosas? Não é sábio guerrear em duas frentes – eu disse sem receber novamente nenhuma resposta.

– Entendo. Todo caso não se preocupem. Agora que estou de volta, irei cuidar bem de vocês, os filhos de minha deusa!

Deixando o edifício avistei as grandes cidades esculpidas na pedra, estradas que contornando imensas estalagmites, se espalhavam como uma rede por toda Doherimm, o reino dos anões.

Você conseguiria imaginar se eu descrevesse a visão?

Terras incontáveis para serem conquistadas e que se espalhavam por todo lugar. E em breve seriam todas minhas. Uma certeza incontestável.

Porque afinal de contas, meu amigo, não era em vão que eu, em outros tempos, fui conhecido pelo nome e a alcunha de Anknarah, o Invicto.

A imagem usada neste artigo pertence a Paizo.

10 thoughts on “Conto: O Caminho para Doherimm (Parte 3 de 3)”

  1. Di Benedetto says:

    RETCON ALERT – Um dos membros desse site me chamou atenção para o fato de ser estranho uma clériga de Lena (que é uma deusa da fertilidade e procriação) adotar o celibato.

    Como não interferia em nada no enredo, a personagem Ariana foi mudada no conto para uma "clériga do Panteão".

    Resumindo: É igual a Ariadna do BB11. Só que com um "d" a menos no nome, e ao invés de mudar de sexo, mudou de religião!

    1. Edu Guimarães says:

      Não entendi. Ela não poderia ter tido o filho e entrado para a ordem de Lena ANTES de fazer o voto de celibato? Afinal, celibato não é voto de virgindade. Lembre-se que as clérigas de Lena passam por um ritual maluco onde são engravidadas, alguns dizem q pela própria Lena, depois disso ela pode ter feito o tal voto de celibato

      1. Di Benedetto says:

        De fato ela poderia ter feito isso. Mas celibato é um conceito meio estranho para uma seguidora da deusa da fertilidade e da procriação. Ainda mais em idade fértil. Demandaria de mim pelo menos uma pequena explicação.

        Então nesse caso achei a mudança válida. Afinal essa característica da personagem era só um detalhe menor do enredo. =)

  2. MrWolf says:

    Muito bom o conto, bastante envolvente e emotivo !!! Não li, e sim devorei até o fim. gostei !!!

  3. Daniel Senpai says:

    Muito bom o conto! Vou recomendar aos meus amigos!

  4. Hebert says:

    Muito bom mesmo. O final foi bem interessante.

  5. Di Benedetto says:

    Valeu galera! Seus comentários fazem esse contista muito feliz! XD

    Espero poder postar mais histórias ambientadas em Arton.

  6. Andros says:

    Excelente, dá a possibilidade de um grande vilão para aventuras em Doherimm que geralmente é esquecida pela maioria…

  7. @Sheroco says:

    Cara,incrível foi pouco pra dizer oq achei dessa magnifica história!! Jogo RPG com Anões praticamente desde a época do Hero Quest,e em breve começarei uma campanha no mundo de Tormenta. Tenebra é uma das minhas Deusas preferidas,e sempre achei que ela tinha pouco destaque nas histórias oficias sobre Arton. Até hoje não vi publicarem praticamente nada sobre o sumo sacerdote dela,que sei que é um Anão,mas não me lembro o nome agora. Aguardando ansiosamente por novas histórias como essa e posso afirmar que minha campanha terá um vilão inesquecível: Anknarah, o Invicto!! 😀

  8. Leir says:

    Eu não esperava esse final, me pegou de surpresa. Achei muito bacana esse conto!

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