Conto: O Caminho para Doherimm (Parte 2 de 3)

Sob o solo, numa profundidade de milhares de quilômetros, Arton abriga colossais complexos de cavernas. Verdadeiros mundos com fauna, flora e civilizações próprias. Eu, é claro, só havia ouvido falar disso por meio das histórias e canções dos bardos.

Foi assim, seguindo Yigdrarrim em sua busca, que nós, por puro capricho da sorte ou o desígnio dos deuses, acabamos nos metendo na rede de labirintos que levava para um daqueles mundos. Sendo bastante honesto, não posso dizer que não tenhamos passado por visões impressionantes acompanhando o anão durante o tempo que vagamos por aqueles túneis e cavernas.

Selvas de fungos fluorescentes que tomavam o teto e se espalhavam em todas as direções. Revoadas de milhares de morcegos que voavam em céus negros de gargantas e desfiladeiros. Pontes naturais, formadas pela erosão e que atravessavam cânions e abismos, por onde corriam cursos de água que alimentavam verdadeiros oceanos. Jardins de estátuas que outrora foram o covil de terríveis e letais medusas.

Mas todas aquelas maravilhas não podiam nos preparar para os horrores e perigos ocultos debaixo da terra.

Em certo momento da viagem Yig se deteve para retirar uma aranha que estava pousada sobre a minha cabeça.

– Veja meu jovem – disse ele – essa é a aranha que chamam de “O Beijo de Tenebra”. Uma pequena mordida dela e qualquer um de vocês adentraria o reino dos deuses. Elas infestam esse lugar. Guardam as trilhas que levam para Doherimm, apenas os anões são imunes ao seu veneno.

– E o que a está impedindo de fazer o serviço? – perguntei, pálido.

– Tenho meus meios – sorriu Yig mostrando um pequeno anel verde, brilhando em seus dedos.

Lembro que, como se obedecendo ao fascínio do artefato, a aranha se embrenhou rapidamente por uma fresta na rocha nua e desapareceu.

O artefato, entretanto não impediu que certa noite, pois era sempre noite lá embaixo, Ariana acordasse gritando em agonia. Em princípio acreditávamos que outro de nós tivesse sido tomado novamente pelo pânico e pela claustrofobia que tanto nos fazia sofrer naquele lugar.

A sensação de estar num lugar fechado. Sem ar. Sufocando.

No entanto seus berros de pura dor, lancinando nossas almas, mostraram que aquilo era algo totalmente diferente. Pior. Muito pior.

Acordei para encontrar a mulher que eu amava, o rosto que por tantas vezes eu fitara com os olhos possuídos pelo desejo, retalhado e em carne viva.

– Meu rosto! – Ariana gritava – ela devorou o meu rosto!

Lágrimas desciam ardentes por aquela face descarnada. No chão um animal se mexia rápido, correu entre as pernas dos halflings e foi fulminado por um arremesso da lança de Celanthres.

Era uma aranha. Diferente da primeira, maior. Ainda havia nacos de carne presos entre suas mandíbulas.

– Uma aranha de Keen! Não entendo meu anel devia ter funcionado contra ela – disse um apavorado Yig.

Todos se recuperavam do choque enquanto Ariana urrava. Nestor e Nívidia faziam o melhor que podiam para tentar conter Celanthres que pretendia dar cabo do anão por sua incompetência ali mesmo.

As preces fervorosas de nossa clériga para os deuses, sua magia, impediram que morresse e a libertaram da dor. No entanto não podiam trazer sua beleza de volta.

Cobri o rosto dela com um pedaço de pano.

– Não se preocupe, somos filhos de Zakharov lembra? – eu disse me esforçando para parecer tranqüilizador – Há bastante metal nesses túneis. Talvez até mesmo ouro. Forjarei uma máscara para você usar. E poderá andar por aí sem problemas, até que a gente consiga algum sacerdote ou mago pra dar um jeito no seu rosto.

Ariana não me respondeu.

Ela nunca mais proferiu uma só palavra. Os meus olhos e os de meu irmão jamais voltaram a se pousar sobre ela novamente, nem iriam os olhos de ninguém. Ela sabia.

Talvez no fim seja isso que a tenha feito cometer aquele ato insano.

Todas essas memórias são estranhas. A forja de meu pai, o rosto de Ariana, as lembranças boas e ruins. Elas que há pouco tempo pareciam tão vivas, agora parecem tão distantes. Como se tudo não tivesse passado de um sonho. Como se tudo isso tivesse acontecido com outra pessoa, e eu tivesse sido o tempo todo um mero espectador.

Parece que finalmente a intensidade de sentimentos que eu sentia começa dar lugar para a apatia e o vazio dentro de mim.

Meu irmão foi a primeira vítima de nossa desafortunada viagem.

Um dos túneis que nós adentramos era um desvio ao longo de uma grande passagem e parecia cada vez menor. Suas paredes irregulares e fofas. Quase úmidas.

Yig estava diferente. A serenidade havia deixado o seu rosto, e sua voz não parecia mais a de um avô benévolo e protetor. Estava estragada e quase inaudível pela tosses secas que o vinham incomodando nos últimos dias.

Dias? Quantos dias estivemos aqui embaixo? Como saber. Era difícil para nós decifrar com exatidão a passagem do tempo.

De repente o anão deteve o seu passo. Todos o olhamos com um misto de curiosidade e preocupação. Quando num sobressalto ele pulou para trás e se pôs a correr na direção contrária.

– CORRAM! CORRAM!

– O que foi dessa vez seu velho idiota?! – gritei enquanto mexia minhas pernas o mais rápido que podia.

– Vermes-da-caverna! Vermes-da-caverna!

– Por Nimb e Khalmyr, homem! Que diabos são essas coisas!

– Você NÃO vai querer saber meu jovem. Nós anões os mantemos afastados através de uma antiga prece.

– O que está esperando então? Comece a orar!

– A prece! Eu não me lembro! Eu não me lembro! Eu não consigo me lembrar! – gritava Yig como se tivesse acabado de constatar aquilo.

Podíamos ouvir o barulho de algo se arrastando atrás de nós, alguma coisa abrindo caminho em meio a terra.

Não.

Não uma. Centenas de coisas. Milhares de coisas.

Quando finalmente deixamos a passagem, tentamos nos afastar dali. Exceto Celanthres.

– O que diabos pensa que está fazendo parado aí?! – disseu eu quase sem fôlego.

– Sabe de uma coisa? Cansei de fugir. Sou um guerreiro, não um covarde. Não irei me mexer mais nem um passo. O que quer que sejam essas coisas não serão páreo para a minha lança – disse Celanthres resoluto, mas ofegante.

– JOVEM TOLO! SAIA DAÍ! AGORA! – gritava Yig histérico e sacudindo os braços curtos freneticamente em todas as direções.

– Celanthres seu imbecil! O que pensa que está fazendo? Quer morrer? – eu disse.

– Se morrer, pelo menos irei morrer com honra e não como um animal me arrastando por esse túneis como um cão! – foi o que ele disse.

Suas últimas palavras. Pelo menos creio que foram.

Não tenho certeza do que aconteceu depois. Em um momento meu irmão estava vivo. No momento seguinte ele estava morto. Não tenho como dizer.

Da passagem irrompeu com violência uma turba infinita de pequenos seres rastejantes que engolfou o seu corpo e todo o espaço ao redor. A nossa frente apareceu uma cortina viva que exalava um odor nauseabundo de sangue. Os pequenos vermes continuavam vindo e vindo brotando pela passagem, e devorando a pedra no lado oposto cavando um novo caminho.

Tentei alcançar o meu irmão e sem pensar imergi o braço naquela massa compacta móvel e fedorenta. Com um urro de dor tudo que eu consegui trazer de volta foi a sua lança, e um braço que já não era mais o meu.

Apenas um membro esquelético quase desprovido de carne e pele.

Não consigo me lembrar direito o que aconteceu depois. Tudo parece cada vez mais confuso, cada vez mais distante.

Apenas lembro que foi a vez de Nivídia. Um grande desmoronamento ou algo assim. Nestor empurrava as pedras, tentava tirá-la debaixo dos escombros e continuava falando com ela o tempo todo. O halfling continuava falando, chorando, suplicando.

Mas ela já estava morta. Eu sabia.

Era numa velha mina de ferro abandonada dos anões, onde havíamos entrando seguindo minhas ordens. Foi onde coletei o material com o qual fiz uma máscara para Ariana, numa forja improvisada.

Desde que havíamos entrado na escavação podíamos ouvir um zunido constante em nossas cabeças. Demoramos para perceber qual era a origem do zunido, e quando percebemos era tarde demais.

Em cima de nós criaturas como lesmas do tamanho de um gato se aproximavam lentamente rastejando pelo teto. Não, não rastejando. Escorrendo lentamente. Eram como se fossem feitas de metal líquido e em uma de suas extremidades houvesse bocas.

Poderíamos ter fugido, mas nossas cabeças ficaram pesadas com o zunido e acabamos adormecendo.

Quando despertamos as coisas haviam transformado os halflings em um apavorante banquete.

Por fim sei que restamos apenas eu, Ariana e o anão. Tivemos que parar para descansar em uma pequena caverna com uma abertura que se lançava para um abismo de escuridão insondável. Iluminando timidamente aquele lugar havia uma pequena formação de estranhos cristais brilhantes.

Yig estava pálido como um cadáver e começava a tossir sangue. Naquele curto espaço de tempo ele parecia ter envelhecido vários anos, naquelas que não poderiam ter sido mais do que algumas semanas.

– Não se preocupem! Estamos próximos! – disse ele sem voz – irei à frente verificar se esse é o lugar e volto logo. Vocês fiquem aqui e descansem.

Eu não agüentava mais caminhar, estava exausto e abalado por tudo que havia acontecido. Era anormalmente frio naquele lugar. Tentei acender uma fogueira para nos aquecer, mas parecia não haver ar o suficiente para isso.

Foi quando vi Ariana olhando para os cristais. Havia retirado a máscara de ferro que eu fizera e que agora ela usava para cobrir seu rosto hediondo.

Ela gritou.

Antes que eu pudesse correr e alcançá-la, correu rumo ao abismo onde saltou. Apenas tive o tempo necessário para vê-la sumir nas trevas. Não sei o que tipo de coisa ou imagem ela viu naqueles cristais.

Acredito que tenha sido o seu reflexo.

Embainhei minha espada apagando seu brilho e fiquei sozinho no escuro.

Não me lembro por quanto tempo fiquei ali.

Não me lembro.

3 thoughts on “Conto: O Caminho para Doherimm (Parte 2 de 3)”

  1. Edu Guimarães says:

    Vou dizer que fiquei deprimido enquanto revisava essa TPK… Parabéns DB, vou aproveitar a onda e ver se resgato o seu artigo sobre Lesmas Magnéticas das ruínas da AdT 2.0.

  2. Di Benedetto says:

    RETCON ALERT – Um dos membros desse site me chamou atenção para o fato de ser estranho uma clériga de Lena (que é uma deusa da fertilidade e procriação) adotar o celibato.

    Como não interferia em nada no enredo, a personagem Ariana foi mudada no conto para uma "clériga do Panteão".

    Resumindo: É igual a Ariadna do BB11. Só que com um "d" a menos no nome, e ao invés de mudar de sexo, mudou de religião!

  3. Hebert says:

    lolHAHAHA; Piada besta essa última. 😛

    Enfim, muito legal. E bem dramático cara! Muito bom mesmo, parabéns.

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