Conto: O Caminho para Doherimm (Parte 1 de 3)

Dezenas de vozes ecoavam pelo vasto e pétreo salão subterrâneo. Estavam reunidos nele diversos integrantes da orgulhosa raça dos anões. Todos eles sacerdotes e paladinos devotos de Khalmyr, deus da justiça.

Um tribunal. É isso o que era.

O juiz que decidiria meu destino se pôs de pé e com um gesto brusco desceu seu pesado martelo de guerra sobre o chão. O impacto da magia trovejante contida no objeto ribombou pelo edifício silenciando a todos.

– E então humano? Será que agora pode finalmente explicar como chegou até aqui?! – vociferou meu algoz.

É claro que eu podia. E apesar das lembranças amargas e da ira que ainda habitava o meu espírito, narrei minha história o melhor que pude.

Você conhece Zakharov, o reino das armas? Foi onde nasci e me criei.

Não espero que você forasteiro compreenda nossa cultura. O conhecimento dos anões sempre se manteve vivo entre nós, e herdamos deles a paixão que tinham por armamentos e armaduras. Entretanto, nunca fomos propriamente um povo de guerreiros, e sim um mero bando de artesãos e ferreiros, apaixonados pelo nosso trabalho. Pela nossa arte.

Você já viu uma lâmina sendo retirada do calor da forja? Logo após o martelo ter descido sobre ela por uma centena de vezes?  Já ouviu o chiado que emite após ser imersa na água gélida que corre dos rios que vem das Montanhas Uivantes?

Creio que não, mas garanto que é uma sensação única. É o que o meu pai costumava fazer. Eu por minha vez sempre preferi um bom escudo. Redondo e compacto, feito de bronze. Proteção leve para o corpo inteiro e também uma arma.

Você acha que escudos não são uma arma? É por que evidentemente nunca foi golpeado com um na cabeça. Mudaria rapidamente de idéia. Isso é; se sobrevivesse ao impacto. E mesmo se sobrevivesse então encontraria prontamente a ponta de minha espada, saudando-o com uma estocada rápida entre as costelas.

Sim, escudos são bastante práticos. Precisei do meu inúmeras vezes.

Não éramos um povo de guerreiros, como disse, mas eu era. Um belo dia, resolvi deixar o calor da forja e as marteladas para o velho e resolvi experimentar os produtos de meu ofício em um campo de batalha.

Pobre pai. Quase morreu de desgosto quando eu e meu irmão deixamos a aldeia.

Anos depois já éramos os orgulhosos chefes de nosso próprio grupo de aventureiros mercenários. Cada um de nós tinha saído de uma pequena vila da mesma região e era também um filho de Zakharov.

Meu irmão Celanthres, um pouco mais velho do que eu, também seguiu o caminho de um homem de armas. Era um ás com a lança. Era como se fosse uma extensão do seu próprio corpo. Podia manuseá-la de perto agilmente, em combate corpo-a-corpo, ou arremessá-la de longe sem nunca errar a pontaria. Muitas vezes o vi pescando na correnteza, arpoando peixes com ela, em meio algum riacho.

Outra adição do nosso grupo eram os órfãos halflings: Nestor e Nivídia. Os oponentes costumavam zombar e fazer pouco caso do seu pouco tamanho, até que inevitavelmente acabavam mortos pelos seus punhais de prata. As criaturinhas eram ágeis, letais e carregadas com um coração de veneno. Os conhecemos em uma de nossas primeiras aventuras e nunca mais conseguimos fazer as pestes pararem de nos seguir.

Por último, mas não menos importante, veio Ariana. Talvez o único e verdadeiro motivo pelo qual eu e meu irmão discutíamos seriamente.

Ariana era uma sacerdotisa do Panteão, uma sacerdotisa que respeitava igualmente todos os deuses.  Mas ao contrário de nós, abominava armas. Apesar de saber que a morte e a guerra também eram necessárias para manter o mundo funcionando ela relutava em matar ou até mesmo ferir.  No entanto era ela que após cada árduo dia de trabalho tratava nossos inúmeros ferimentos com suas magias de cura.

Em três palavras? Ela era linda.

Se não fosse o voto que fez, seu celibato, provavelmente eu e Celanthres teríamos lutado num duelo até a morte. O sobrevivente teria se casado com ela, tido dez filhos, e vivido tranquilamente numa fazenda criando trobos em Deheon.

Ao invés disso, nós preferimos continuar todos juntos, e nos aventurando. Éramos, ao nosso modo, uma família.

Sinto uma tremenda falta de todos eles.

Acabávamos de nos recuperar de um grande fracasso. No dia anterior Celanthres havia abatido, com um único golpe de sua lança infalível, um gigante que atemorizava os moradores de uma pequena cidadela nas montanhas.

Ou pelo menos, foi o que ele julgou fazer.

O gigante era na verdade o guardião do lugar e os habitantes furiosos fizeram com que nós entregássemos praticamente todo nosso ouro como indenização pela morte da criatura.

Quando anoiteceu fomos para a taverna local. Estávamos gritando e atirando coisas uns nos outros, como de costume, enquanto tentávamos decidir quem lavaria os pratos para pagar pelo jantar.

Quando finalmente o conhecemos. O anão.

Com um rosto imberbe e um sorriso bondoso ele era bastante atípico para um membro de sua raça. Calvo, cultivava longos e brancos os poucos cabelos que ainda tinha. Estava vestido com roupas exóticas, de uma vívida cor vermelha.

Suas palavras tremidas soavam como as de um avô risonho e benevolente.

– Posso me sentar aqui com vocês?! – disse prontamente, puxando uma cadeira antes que pudéssemos responder com um alto e sonoro não – Aquele foi um feito impressionante meus jovens. Precipitado, mas impressionante. Pobre Rex! Ele era um bom gigante.

– O que você quer velho?! – respondi a ele com minha usual gentileza.

– Eu? Oh bem, me desculpem, mas é que não pude deixar de ouvir do outro lado da taverna a calorosa discussão de vocês. Pensei se não estariam dispostos a trabalhar em troca de alguns tibares de ouro?

Nestor se adiantou jocoso como sempre – Ahhh, deixe eu adivinhar! Você quer nos contratar para recuperar um artefato mágico de imenso poder…

 – das profundezas de uma assustadora masmorra. – completou Nivídia, sorrindo.

– Jovens malditos! – disse o anão – É exatamente o que eu tinha em mente!

O anão se apresentou como Yigdrarrim Lordheinem VI. Como todos bem sabíamos não existiam muitos magos entre os membros da raça anã, mas existiam exceções.

Yigdrarrim era uma exceção.

De acordo com a história que ele nos contou, foi expulso de seu reino natal após ter sido o responsável por um terrível acidente quando jovem. Veio para os reinos da superfície para aprender e aprimorar suas magias. Acabou estudando durante muito tempo na grande Academia Arcana em Valkária, onde se formou com louvor especializando-se na análise de artefatos antigos.

Yig, como foi prontamente apelidado por Nivídia, disse estar em peregrinação, à procura de um antigo templo oculto nas entranhas do subsolo.

– No princípio de tudo, quando Arton mal havia acabado de nascer, houve uma grande e terrível guerra entre as forças de Azgher, o deus sol, e Tenebra, a deusa da noite. Dizem as lendas que suas tropas eram lideradas por couatls: serpentes aladas gigantescas que atuavam como generais de seus exércitos.

Entre as couatls, um grande general se destacou no lado das trevas. Seu nome era Anknarah, o Invicto. Dizem que Anknarah era tão poderoso e tão cruel, uma vantagem tão desproporcional para o lado de Tenebra, que Khalmyr aprisionou seu corpo verdadeiro dentro das profundezas da terra e depositou sua alma em um orbe mágico. Foi permitido que ele continuasse tomando parte da guerra, mas apenas indiretamente, aconselhando suas tropas com sua grande sabedoria e divisando estratégias.

Muito tempo se passou e foi determinado pelo julgamento dos deuses que a luz e as trevas dividiriam o dia. A guerra terminou.

No entanto, os altos sacerdotes de Tenebra, temendo que seus postos fossem rebaixados quando Anknarah fosse libertado novamente, decretaram que sua alma deveria permanecer selada dentro do orbe. O objeto foi trancafiado num templo da deusa, localizado entre os túneis que ligavam o mundo subterrâneo e o mundo da superfície. E então esquecido. Seu imenso gênio e conhecimento militar foram perdidos para sempre.

Nós anões nunca perturbamos Anknarah, um mito antigo ao qual temíamos, e usamos magia divina para apagar as mentes daqueles poucos que conheciam localização do templo. As expedições de aventureiros das raças da superfície que perseguiram a lenda do orbe jamais conseguiram êxito em encontrá-lo, sendo derrotados pelos perigos que guardam o caminho para nosso reino secreto: Doherimm.

É esse orbe  o poderoso artefato que procuro! Imaginem o que significaria para Arton recuperar todo o conhecimento e memória desse ser ancestral?! E vocês, meus amigos, podem se juntar a mim nessa nobre expedição.

Como recompensa, garanto tesouros que estão além da imaginação de vocês!

– Se nenhuma expedição obteve sucesso até hoje, o que o faz pensar que nós iremos conseguir? – perguntei inquisitivo.

– Por dois motivos – respondeu Yig, após se recuperar de uma longa tosse – O primeiro motivo é que eu conheço a localização do templo. Acredito ter encontrando ele há muito tempo atrás,  após ter sido exilado, enquanto eu viajava para os reinos da superfície.

– E o segundo motivo? – perguntou Ariana.

– O segundo motivo é que nenhuma outra expedição teve um anão como guia! – concluiu Yig triunfante.

Sei que pode parecer estranho termos aceitado aquela missão assim, com tão poucas reservas. Você provavelmente está acostumado a figura do herói relutante, tão apegado ao seu mundinho e vida ordinária que quando o chamado da aventura se põe em seu caminho, é necessário que alguma coisa aconteça para empurrá-lo rumo à sua jornada.

Mas nós estávamos acostumados com aquilo e desesperados por dinheiro. A vida de aventureiro era a única que conhecíamos. Quando todo o planejamento necessário envolvendo a missão foi feito e todos os detalhes acertados, partimos para o nosso destino sem olhar para trás. Levamos suprimentos o bastante para uma longa viagem e encantamentos em nossas armas, que passaram a ser capazes de iluminar a escuridão, dispensando assim a necessidade de fazer tochas ou fogo.

O ponto de partida foram as passagens de uma enorme e solitária montanha no reino gelado das Uivantes. A montanha-monólito: completamente feita de ferro embora coberta pela neve, não foi difícil de achar.

Yig a localizou utilizando uma simples bússola.

Adentramos os túneis para os reinos subterrâneos, sem medo, em busca do templo que abrigava o misterioso orbe e seguimos em frente.

Ou melhor, para baixo.

A imagem usada neste artigo pertence ao artista Ig Barros.

10 thoughts on “Conto: O Caminho para Doherimm (Parte 1 de 3)”

  1. Thierre says:

    Muito bom o conto! Ansioso por ver a continuação…
    Parabéns!

  2. Edu Guimarães says:

    Bom, o q dizer? Revisar essa joça (2x) foi bem legal ^^ O conto é interessante, tem uma pegada do mal e uma… [CENSURADO: PARA DE DAR SPOLIER EDITOR!]

    Vou deixar de preguiça e passar a ler mais os contos que são postados na RPGbloguesfera.

  3. Di Benedetto says:

    Vlw Thierre!

    Fiquei com medo da primeira parte ficar muito morna por causa de ser uma introdução geral dos personagens. Mas pelos comentários que recebi pelo Twitter, parece que pelo menos quem leu curtiu. ^^

    Aguardem a a parte 2 & 3, que mais coisa vem por aí!

    (Já estão prontas e logo postamos)

  4. guilss says:

    Caramba cara mto boa essa introduçao!! Se vc tava com medo pod fica tranquilo pq fico legal d verdade… Mas afinal quando sai a proxima???? (pergunta q nao quer calar)

    1. Edu Guimarães says:

      A parte dois saiu ontem (domingo) e a 3 sai amanhã (terça).

  5. Calvin says:

    Show.
    Há possibilidade de aprovarem um conto de minha autoria no site?

    1. Edu Guimarães says:

      Aceitamos colaborações, basta gostarmos do material e acharmos viável sua publicação, e somos bem sinceros quanto a isso. O Shamassu (autor do artigo do Cubo Gelatinoso) começou escrevendo para o blog assim.

  6. Di Benedetto says:

    RETCON ALERT – Um dos membros desse site me chamou atenção para o fato de ser estranho uma clériga de Lena (que é uma deusa da fertilidade e procriação) adotar o celibato.

    Como não interferia em nada no enredo, a personagem Ariana foi mudada no conto para uma "clériga do Panteão".

    Resumindo: É igual a Ariadna do BB11. Só que com um "d" a menos no nome, e ao invés de mudar de sexo, mudou de religião!

  7. lordhydrakun says:

    Vocês ainda vão postar Classes de Prestigio? *-*
    Caso sim eu sugiro o Mago Vermelho, que nem a Jambo adaptou, ele pode ter conexão com a expansão de Arton, que podemos nois dar ideia sobre ela…
    Espero ansciosamente respostas…

  8. 157 says:

    legal.

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